quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Contos dos Esquecidos #03: O meu pai

O MEU PAI


Nunca entendi muito bem o que aquele estranho rapaz me dizia. Um pouco disso era por causa da minha pouca idade: era uma apenas criança e não dava ainda para se cobrar muito de mim.

Aquele rapaz vinha de vez em quando nos visitar e, sempre que vinha, brincava muito comigo e se divertia comigo. Ele sempre sabia o que dizer, sabia como brincar e o que trazer para me deixar um pouco mais contente. Lembro-me de ter muita diversão em casa quando estávamos juntos, pois sempre passávamos algum tempo juntos enquanto minha mãe se desdobrava para arrumar a casa, para preparar o almoço e também para arrumar a minha mamadeira.

Aquele rapaz sempre parecia adivinhar do que eu queria brincar. Lembro-me muito bem de que a primeira bola de futebol que tive foi ele quem me deu. Consigo me lembrar também até hoje o quão feliz fiquei ao recebê-la em minhas mãos.

Entre o sofá da sala e a parede mais próxima dele foi onde eu fizera meu primeiro gol que eu me lembre e lá estava ele, tentando defender meu chute, mas, ao mesmo tempo, comemorando aquele gol comigo. Hoje sei que ele deixara a bola passar propositalmente por entre suas pernas para que eu pudesse desfrutar daquele momento mágico e comemorar meu primeiro gol, mas juro que não importa: o brilho que estava em seus olhos e o abraço apertado e gostoso que me dera naquele momento para comemorar meu primeiro bom chute em direção àquele gol improvisado, foi inesquecível para mim.

Eu vi em seus olhos uma grande alegria. Aliás, até poderia dizer que aquela alegria fora até maior que a alegria que eu mesmo estava sentindo naquele momento. Tal alegria fora tão contagiante que comemoramos como se fosse um gol importante em uma final de campeonato.

Conversávamos bastante. Ele se interessava muito pelo que eu aprendia na minha pequena escolinha. Eu falava de tudo o que estava aprendendo: falava das cores, das formas geométricas, dos nomes dos animais e das letras que estava conhecendo naquele momento. Mas, o melhor é que não importava que fossem coisas simples, ele sabia que para mim eram importantíssimas, então ele as tratava assim também.

Aquele mesmo rapaz que vinha, geralmente, uma vez por mês, nunca se esquecia de me trazer um presente. Aquele presente era sempre algo que eu estava querendo muito, ele sempre acertava aquilo que eu queria ganhar. Hoje sei que era minha mãe quem falava para ele o que eu estava querendo ganhar, mas não importava: ainda ficava muito feliz pelos meus presentes!

Acompanhado de um simples brinquedo para mim sempre vinham flores ou até chocolates para minha mãe. Lembro-me de ver aqueles lindos olhos dela muito felizes na época, lembro-me de ver sempre um sorriso em seus lábios ao ver o seu telefone celular tocar: acho que ela já sabia que era ele quem estava ligando. E quando ele chegava, então! Não há palavras para descrever a alegria que aparecia nos olhos dela.

Eu juro que sempre a pegava olhando para aquele porta-retratos que ficava na sala. No centro dele havia uma foto daquele rapaz e lembro-me de vê-lo sorrindo. Aquela foto sempre era admirada por ela durante alguns minutos naquela época; minutos estes que eram sempre seguidos por um sussurro de “Eu te amo”.

Hoje em dia, no lugar ocupado pela foto daquele rapaz, está uma foto onde estamos juntos: minha mãe, meu pai e eu. Aqueles presentes sempre certos e aquela dedicação dados por aquele rapaz foram trocados por presentes que com os que nunca brinco e alguns poucos minutos de atenção dados pelo meu pai, para minha mãe e eu.

Aquele sorriso que via no olhar de minha mãe a cada vez que o telefone tocava foi trocado por um frio beijo de boa noite em meu pai quando o mesmo volta do trabalho. Aquele mesmo brilho nos olhos dela já não existe mais.

Dizem que pai é aquele que ensina, que apoia, que sempre brinca conosco. Dizem que viver com o pai e a mãe na mesma casa é a melhor coisa do mundo. Todos me dizem que este homem que hoje mora comigo e com minha mãe é o meu pai. É estranho, pois isso vai contra a frase que diz ser “a melhor coisa do mundo”. Melhor era antes com aquele rapaz que vinha e trazia alegria para casa; melhor era quando eu via sempre minha mãe feliz, melhor era quando eu tinha alguém que me dava atenção e gostava de se divertir comigo.

Se for assim para escolher, eu escolho aquele rapaz, aquele mesmo que fazia nossa casa e nossa vida mais feliz, para ser o meu pai.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Contos dos Esquecidos #02: Cigarros

CIGARROS



Acho que devo parar de fumar. Sempre achei muito legal fumar, mas depois de tantos anos, acho que chegou a hora de parar. Quando eu era jovem, fumar estava na moda. Ao ver meus amigos fumando, quis fazer parte desta turma e comecei a fumar. Desde então nunca parei, nunca quis parar, mas acho que agora é a hora certa.

Nunca fui muito divertido. Sempre estudioso e bom aluno, tirava as maiores notas da classe na maioria das matérias escolares. No começo isso era legal, todos gostavam de mim e todos conversavam comigo, sempre pediam a minha ajuda e eu tinha muitos amigos. Mas quando entrei no ensino médio, tudo mudou: ser o aluno mais inteligente não atraía mais amigos, atraía apenas muitas brincadeiras com um alvo definido: eu. Se não atraía amigos, atraía menos ainda as garotas. Não que eu quisesse ter garotas, mas ficar sem isolado e sem amigos é algo muito solitário.

Vi, então, que para mudar esta minha imagem, eu teria que fazer algo. Resolvi começar a fumar, resolvi me enturmar, resolvi ficar perto de quem chamava a atenção.

Claro que tudo isso teve um preço: comecei a fazer a maioria dos trabalhos dos meus colegas e sempre passava respostas das provas. Eu queria que estivéssemos sempre juntos, mas eles só queriam aproveitar meu conhecimento para ter boas notas. Não importa: valeu a pena, aquela solidão que eu sentia foi diminuindo com o tempo, eu já não era apenas aquele estudioso solitário.

Todos vivíamos sempre conversando e dando muitas risadas. Após a aula, sempre saíamos juntos para conversar, fumar nossos cigarros, comer alguma coisa, falar sobre música e sobre o que faríamos no fim de semana. Porém aqueles anos infelizmente acabaram e todos nós nos separamos. Foi difícil aceitar, foi difícil voltar para aquela minha solidão: comecei a fumar ainda mais nessa época.

Em nosso velho grupo de amigos, muita coisa mudou muita coisa aconteceu: um sofreu um acidente de carro por dirigir embriagado logo após nos formarmos e ficou paraplégico, hoje trabalha num escritório de contabilidade como secretário; outro virou mecânico, casou-se e hoje tem dois filhos e um casamento caindo aos pedaços; já outro amigo nosso não quis fazer faculdade e hoje trabalha numa lanchonete onde costumávamos ir enquanto jovens. Apenas dois de nós resolveram fazer uma faculdade: um deles eu.

Lembro de saber desse outro amigo que fizera faculdade também, ele me mandou uma carta quando estava no segundo ano de Matemática em uma faculdade federal. Na carta dissera que estava gostando muito do que estava estudando e me perguntou o que eu estava fazendo da vida. Foi a última vez que nos falamos, até respondi aquela carta, mas ele não mandou mais nenhuma; também não me ligou quando eu passara meu número de telefone. Ouvi dizer que ele se casara lá na cidade onde estudava, mas acabei não sendo convidado. E, como seu pai morreu quando ainda estudava, sua mãe fora morar na mesma cidade dele para não ficar sozinha.

Eu cursei Direito. Nunca fora meu sonho seguir esta carreira, mas fui pressionado a fazê-lo pelos meus pais. Sei que eles sempre quiseram o melhor para mim, mas algo em mim sabia que aquele não era o melhor caminho. Eu sempre gostara de ler, principalmente poesia. De qualquer forma, segui firme nos estudos e me formei com honras em Direito. Após me formar, peguei meu diploma, deixei nas mãos de meus pais e fui correr atrás de meu sonho: estudar Literatura.

Este meu sonho fora realizado quando fui fazer Mestrado e, em seguida, Doutorado. Baseei-os em Literatura Brasileira, minha favorita. Hoje sou professor em uma famosa universidade estadual de Letras e dou aulas, principalmente, de poesia: gosto muito de transmitir esse conhecimento para meus alunos, falar sobre os melhores livros, os melhores autores e apresentar esse novo mundo para eles.

Mas hoje ainda há coisa que me entristece: sinto não ser muito bem compreendido pelos meus alunos, sinto que eles não absorvem o conteúdo que tento transmitir. Acho que não sou muito bem compreendido, acho que não consigo despertar neles a paixão que tenho por aqueles livros, por aqueles autores.

Hoje não tenho muitos amigos. Existem pessoas que admiram meu trabalho e, por isso, me reconhecem como um grande profissional, mas sinto não ser o suficiente. Converso sempre com essas pessoas, mas apenas sobre assuntos acadêmicos. São poucas pessoas ouvem meus problemas e me apoiam em horas mais difíceis. Cheguei a fazer terapia, mas não me ajudou muito. Comecei a fumar mais ainda nesta época.

Tenho que contar uma coisa: digo que preciso parar de fumar porque meu médico proibiu. Passei por um enfarto poucos meses atrás e um dos motivos, segundo ele, foi o cigarro. Não sei se consigo parar de fumar. Na verdade, não sei se quero parar. 

Antes fumava para ter amigos, hoje fumo para suprir a falta deles, fumo para me acalmar um pouco em meio a esta solidão patética onde estou inserido. Pensando bem, talvez parar de fumar não seja a melhor solução, não seja tão importante assim. Vivo para o trabalho e pelo trabalho e sei posso viver e produzir até quando meu coração aguentar. Creio que o cigarro me faça feliz, me ajude com esta angústia do dia a dia. É melhor tudo assim como está: meus cigarros e eu..

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Contos dos Esquecidos #01: Giz


Giz




A televisão antiga que fica na sala é minha única e fiel companheira de todos os dias. Junto dela, tenho minha cadeira de balanço posicionada em um local perfeito e confortável, assim posso assistir a meus programas preferidos e me distrair um pouco nesta minha vida tranquila, monótona e esquecida. Graças a elas, eu tenho alguns momentos de entretenimento nos meus dias, meses, anos, décadas.

Sim, eu me sinto muito sozinha. Mesmo sendo querida por todos meu ex-alunos, ainda falta algo, ainda falta alguém. Sim, tive que parar de lecionar, minha voz já não saía como antes, meus braços não escreviam como antes, minha vida já não era como antes: nada é como antes.

Recebo algumas visitas de alguns de meus ex-alunos de vez em quando. É pouco, porém me faz bem. Mas, ainda assim, sinto como se fosse pouco demais, como se faltasse algo. Talvez seja esse o preço de não ter me casado. Se nunca me apaixonei? Sim, eu tive um grande amor na minha juventude, há muito tempo atrás, mas por ironia do destino, fiquei só. Nunca descobri por que motivo ele foi embora, mas hoje é tarde demais para isso, hoje não há como voltar atrás. Depois disso escolhi, então, ficar só; escolhi a solidão.

É verdade também que comigo mora meu irmão. Mas, como sempre vivera às custas alheias, como sempre fizemos muito por ele, até hoje ele não cresceu. Somos dois idosos solitários trancados em casa e, mesmo assim, ele ainda não cresceu. Ele tem tudo o que quer, sempre do jeito que quer: fácil e sem esforço. Talvez seja culpa minha: para fugir da solidão, aceitei qualquer preço e fiz o que pude para mendigar a companhia dele. Hoje sou ainda mais solitária, pois ele mal se lembra de mim, mal se importa com esta velha cansada.

Não digo que ele não seja uma companhia nunca, mas não dividimos juntos nosso tempo, não fazemos juntos coisas que são importantes para mim. Sentamos à mesa e comemos juntos, mas nossas conversas limitam-se a tarefas do cotidiano, a lembretes de pagamentos de contas, aos pratos a serem servidos nas refeições e a telefonemas que fazemos ou recebemos, mais nada. Não há interação, não há conversas animadas, não há sorrisos, não há aprendizado, não há vida. Sinto que mal conversamos, sinto como se não morássemos no mesmo lugar, como se não fôssemos da mesma família. Não temos nem assuntos em comum, talvez tudo se resuma a isso.

Tenho vários sobrinhos. Dentre eles, poucos são aqueles que se lembram desta velha senhora que dedicou parte de sua vida a dar atenção e prestigiá-los com doces e guloseimas. Geralmente, são aqueles que moram longe que mais dedicam sua atenção a esta pobre velha cansada. Alguns dos que moram por perto nem se lembram de que existo.

Acabei de completar noventa anos, ganhei um belo almoço para comemorar. Chorei. Havia tempo que não sorria como naquele dia, havia tempo que não conversava, que não demonstrava meu sorriso cansado, que não compartilhava meus assuntos preferidos como fiz naquele breve momento. Eu precisava daquilo e como precisava! Aliás, muito obrigado por isso!

Mas eu queria mais: mais vezes momentos como aquele, mais sorrisos como aqueles, mais abraços como aqueles, mais vida como aquela; eu merecia isso. Fiquei muito emocionada, foi um dia realmente inesquecível, marcante e intenso. Meu velho irmão também não fora dessa vez, mas como eu disse antes: não compartilhamos muitos momentos juntos.

Tenho muitos sobrinhos-netos. Todos já grandes, com seus empregos, com suas vidas, com suas famílias, com suas rotinas. Mas, se grande parte de seus pais nem me visitam, imagina eles! Nem sabem quem sou eu, nem sabem que eu existo; talvez nunca nem ouviram falar de mim, talvez nunca souberam quem eu sou! Mas sim, existem outros que sempre vêm me visitar. Aliás, dias atrás vieram alguns deles aqui! Foi bom, muito bom.

Acredito que em nossas conversas tenho muito a contar para eles, tenho muito a ensinar, tenho muito ainda a aprender. Sim, aprender: a principal função do professor é aprender, pois só assim poderá transmitir conhecimento. Assim eu aprendi, assim eu ainda aprendo, assim eu ensinei, assim ainda ensino; enquanto houver fôlego aqui em meus velhos pulmões cansados, assim será.

Um de meus sobrinhos-netos até está seguindo meus passos e dando aulas! Ele também gosta muito de escrever, assim como eu sempre gostei. Ao vir aqui, passou um tempo comigo, conversamos bastante, compartilhamos bastante. Eu tentei falar como era essa nossa profissão, ele me disse como estava sendo essa nova jornada dele. Contei como era bom ser professora e como era melhor ainda ser reconhecida por isso. É muito gratificante ver que estão seguindo meus passos, ver que também têm o prazer que eu tive de ensinar.

Hoje em dia, sinto que o mundo precisa mais de arte. É somente a arte que pode mudar o mundo e tirar toda essa vida mecânica e programada na qual caímos e de onde não temos conseguido sair. A literatura, por exemplo, nos faz viajar, nos traz grandes benefícios, tanto socialmente quanto culturalmente. A arte tem o poder de amadurecer as pessoas, de fazê-las crescer, de fazê-las enxergar novos caminhos, criar novos mundos, entender o mundo onde pisam. A literatura simula a vida apresentando os erros e acertos que podemos cometer; as dificuldades e as saídas que conseguimos encontrar nelas. A literatura nos faz crescer como pessoas.

Vivo pela arte e respiro essa arte.  É a literatura junto de minhas lembranças que me faz querer continuar vivendo e passando essa experiência de vida que carrego aqui comigo. Tal experiência que não tive o prazer de dividir com meus filhos, pois nunca os tive. Porém, sei que meus alunos, meus sobrinhos, seus filhos e demais familiares podem aprender, nem que for apenas um pouco, com o que tenho a ensinar; todos que se importam ou já se importaram com esta velha e solitária senhorita, podem ainda ter um pouco a aprender comigo e junto comigo.

Hoje estou esperando uma visita. Comprei refrigerante, bolo, salgadinhos e docinhos. Alguma data especial? Talvez não, mas, para mim, todo dia que tenho visitas é um dia especial! Eu gosto muito de conversar com as pessoas, gosto muito de contar como foi minha vida, de compartilhar minhas experiências e de falar de tudo o que aprendi com o passar dos meus anos. Sei que as pessoas estão ocupadas demais com suas famílias, com seus empregos, com suas vidas e acabam, com isso, se esquecendo desta velha senhorita cansada. Mas, não tem problema, eu espero. Digo que espero, só não posso dizer até quando meus hoje noventa anos irão aguentar, pois não sei mais quantas velinhas ainda terei fôlego para soprar.

Bom, de qualquer forma já está tarde, parece que hoje não virão. Deixe-me guardar o que comprei para uma próxima vez, pode ser que venham amanhã, pode ser que venham semana que vem. A luz está acesa, tenho que apagá-la antes de dormir. Espero que venham mesmo amanhã; ainda estarei aqui na minha velha cadeira de balanço, junto da minha velha televisão, no mesmo lugar, esperando.