O MEU PAI
Nunca
entendi muito bem o que aquele estranho rapaz me dizia. Um pouco disso era por
causa da minha pouca idade: era uma apenas criança e não dava ainda para
se cobrar muito de mim.
Aquele
rapaz vinha de vez em quando nos visitar e, sempre que vinha, brincava muito
comigo e se divertia comigo. Ele sempre sabia o que dizer, sabia como brincar e
o que trazer para me deixar um pouco mais contente. Lembro-me de ter muita
diversão em casa quando estávamos juntos, pois sempre passávamos algum tempo
juntos enquanto minha mãe se desdobrava para arrumar a casa, para preparar o
almoço e também para arrumar a minha mamadeira.
Aquele
rapaz sempre parecia adivinhar do que eu queria brincar. Lembro-me muito bem de
que a primeira bola de futebol que tive foi ele quem me deu. Consigo me lembrar
também até hoje o quão feliz fiquei ao recebê-la em minhas mãos.
Entre
o sofá da sala e a parede mais próxima dele foi onde eu fizera meu primeiro gol
que eu me lembre e lá estava ele, tentando defender meu chute, mas, ao mesmo
tempo, comemorando aquele gol comigo. Hoje sei que ele deixara a bola passar
propositalmente por entre suas pernas para que eu pudesse desfrutar daquele
momento mágico e comemorar meu primeiro gol, mas juro que não importa: o brilho
que estava em seus olhos e o abraço apertado e gostoso que me dera naquele
momento para comemorar meu primeiro bom chute em direção àquele gol improvisado, foi inesquecível para mim.
Eu
vi em seus olhos uma grande alegria. Aliás, até poderia dizer que aquela
alegria fora até maior que a alegria que eu mesmo estava sentindo naquele
momento. Tal alegria fora tão contagiante que comemoramos como se fosse um gol
importante em uma final de campeonato.
Conversávamos
bastante. Ele se interessava muito pelo que eu aprendia na minha pequena
escolinha. Eu falava de tudo o que estava aprendendo: falava das cores, das
formas geométricas, dos nomes dos animais e das letras que estava conhecendo
naquele momento. Mas, o melhor é que não importava que fossem coisas simples,
ele sabia que para mim eram importantíssimas, então ele as tratava assim
também.
Aquele
mesmo rapaz que vinha, geralmente, uma vez por mês, nunca se esquecia de me
trazer um presente. Aquele presente era sempre algo que eu estava querendo
muito, ele sempre acertava aquilo que eu queria ganhar. Hoje sei que era minha
mãe quem falava para ele o que eu estava querendo ganhar, mas não importava: ainda
ficava muito feliz pelos meus presentes!
Acompanhado
de um simples brinquedo para mim sempre vinham flores ou até chocolates para
minha mãe. Lembro-me de ver aqueles lindos olhos dela muito felizes na época,
lembro-me de ver sempre um sorriso em seus lábios ao ver o seu telefone celular
tocar: acho que ela já sabia que era ele quem estava ligando. E quando ele
chegava, então! Não há palavras para descrever a alegria que aparecia nos olhos
dela.
Eu
juro que sempre a pegava olhando para aquele porta-retratos que ficava na sala.
No centro dele havia uma foto daquele rapaz e lembro-me de vê-lo sorrindo.
Aquela foto sempre era admirada por ela durante alguns minutos naquela época; minutos
estes que eram sempre seguidos por um sussurro de “Eu te amo”.
Hoje
em dia, no lugar ocupado pela foto daquele rapaz, está uma foto onde estamos
juntos: minha mãe, meu pai e eu. Aqueles presentes sempre certos e aquela
dedicação dados por aquele rapaz foram trocados por presentes que com os que nunca
brinco e alguns poucos minutos de atenção dados pelo meu pai, para minha mãe e
eu.
Aquele
sorriso que via no olhar de minha mãe a cada vez que o telefone tocava foi
trocado por um frio beijo de boa noite em meu pai quando o mesmo volta do
trabalho. Aquele mesmo brilho nos olhos dela já não existe mais.
Dizem
que pai é aquele que ensina, que apoia, que sempre brinca conosco. Dizem que
viver com o pai e a mãe na mesma casa é a melhor coisa do mundo. Todos me dizem
que este homem que hoje mora comigo e com minha mãe é o meu pai. É estranho,
pois isso vai contra a frase que diz ser “a melhor coisa do mundo”. Melhor era
antes com aquele rapaz que vinha e trazia alegria para casa; melhor era quando
eu via sempre minha mãe feliz, melhor era quando eu tinha alguém que me dava
atenção e gostava de se divertir comigo.
Se
for assim para escolher, eu escolho aquele rapaz, aquele mesmo que fazia nossa
casa e nossa vida mais feliz, para ser o meu pai.

Nenhum comentário:
Postar um comentário