terça-feira, 19 de novembro de 2019

Contos dos Esquecidos #02: Cigarros

CIGARROS



Acho que devo parar de fumar. Sempre achei muito legal fumar, mas depois de tantos anos, acho que chegou a hora de parar. Quando eu era jovem, fumar estava na moda. Ao ver meus amigos fumando, quis fazer parte desta turma e comecei a fumar. Desde então nunca parei, nunca quis parar, mas acho que agora é a hora certa.

Nunca fui muito divertido. Sempre estudioso e bom aluno, tirava as maiores notas da classe na maioria das matérias escolares. No começo isso era legal, todos gostavam de mim e todos conversavam comigo, sempre pediam a minha ajuda e eu tinha muitos amigos. Mas quando entrei no ensino médio, tudo mudou: ser o aluno mais inteligente não atraía mais amigos, atraía apenas muitas brincadeiras com um alvo definido: eu. Se não atraía amigos, atraía menos ainda as garotas. Não que eu quisesse ter garotas, mas ficar sem isolado e sem amigos é algo muito solitário.

Vi, então, que para mudar esta minha imagem, eu teria que fazer algo. Resolvi começar a fumar, resolvi me enturmar, resolvi ficar perto de quem chamava a atenção.

Claro que tudo isso teve um preço: comecei a fazer a maioria dos trabalhos dos meus colegas e sempre passava respostas das provas. Eu queria que estivéssemos sempre juntos, mas eles só queriam aproveitar meu conhecimento para ter boas notas. Não importa: valeu a pena, aquela solidão que eu sentia foi diminuindo com o tempo, eu já não era apenas aquele estudioso solitário.

Todos vivíamos sempre conversando e dando muitas risadas. Após a aula, sempre saíamos juntos para conversar, fumar nossos cigarros, comer alguma coisa, falar sobre música e sobre o que faríamos no fim de semana. Porém aqueles anos infelizmente acabaram e todos nós nos separamos. Foi difícil aceitar, foi difícil voltar para aquela minha solidão: comecei a fumar ainda mais nessa época.

Em nosso velho grupo de amigos, muita coisa mudou muita coisa aconteceu: um sofreu um acidente de carro por dirigir embriagado logo após nos formarmos e ficou paraplégico, hoje trabalha num escritório de contabilidade como secretário; outro virou mecânico, casou-se e hoje tem dois filhos e um casamento caindo aos pedaços; já outro amigo nosso não quis fazer faculdade e hoje trabalha numa lanchonete onde costumávamos ir enquanto jovens. Apenas dois de nós resolveram fazer uma faculdade: um deles eu.

Lembro de saber desse outro amigo que fizera faculdade também, ele me mandou uma carta quando estava no segundo ano de Matemática em uma faculdade federal. Na carta dissera que estava gostando muito do que estava estudando e me perguntou o que eu estava fazendo da vida. Foi a última vez que nos falamos, até respondi aquela carta, mas ele não mandou mais nenhuma; também não me ligou quando eu passara meu número de telefone. Ouvi dizer que ele se casara lá na cidade onde estudava, mas acabei não sendo convidado. E, como seu pai morreu quando ainda estudava, sua mãe fora morar na mesma cidade dele para não ficar sozinha.

Eu cursei Direito. Nunca fora meu sonho seguir esta carreira, mas fui pressionado a fazê-lo pelos meus pais. Sei que eles sempre quiseram o melhor para mim, mas algo em mim sabia que aquele não era o melhor caminho. Eu sempre gostara de ler, principalmente poesia. De qualquer forma, segui firme nos estudos e me formei com honras em Direito. Após me formar, peguei meu diploma, deixei nas mãos de meus pais e fui correr atrás de meu sonho: estudar Literatura.

Este meu sonho fora realizado quando fui fazer Mestrado e, em seguida, Doutorado. Baseei-os em Literatura Brasileira, minha favorita. Hoje sou professor em uma famosa universidade estadual de Letras e dou aulas, principalmente, de poesia: gosto muito de transmitir esse conhecimento para meus alunos, falar sobre os melhores livros, os melhores autores e apresentar esse novo mundo para eles.

Mas hoje ainda há coisa que me entristece: sinto não ser muito bem compreendido pelos meus alunos, sinto que eles não absorvem o conteúdo que tento transmitir. Acho que não sou muito bem compreendido, acho que não consigo despertar neles a paixão que tenho por aqueles livros, por aqueles autores.

Hoje não tenho muitos amigos. Existem pessoas que admiram meu trabalho e, por isso, me reconhecem como um grande profissional, mas sinto não ser o suficiente. Converso sempre com essas pessoas, mas apenas sobre assuntos acadêmicos. São poucas pessoas ouvem meus problemas e me apoiam em horas mais difíceis. Cheguei a fazer terapia, mas não me ajudou muito. Comecei a fumar mais ainda nesta época.

Tenho que contar uma coisa: digo que preciso parar de fumar porque meu médico proibiu. Passei por um enfarto poucos meses atrás e um dos motivos, segundo ele, foi o cigarro. Não sei se consigo parar de fumar. Na verdade, não sei se quero parar. 

Antes fumava para ter amigos, hoje fumo para suprir a falta deles, fumo para me acalmar um pouco em meio a esta solidão patética onde estou inserido. Pensando bem, talvez parar de fumar não seja a melhor solução, não seja tão importante assim. Vivo para o trabalho e pelo trabalho e sei posso viver e produzir até quando meu coração aguentar. Creio que o cigarro me faça feliz, me ajude com esta angústia do dia a dia. É melhor tudo assim como está: meus cigarros e eu..

Um comentário:

  1. O que mata também pode salvar, ou pelo menos dar a ilusão de salvação.
    Ótima leitura, parabéns.

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